22 setembro, 2007

CRÓNICA DA CASA FUTURANTE
O plano do mundo à imagem das palavras



(IV)

Os anos da luz e da cal


A memória faz sofrer, a não ser que seja
transformada em matéria para pensar
.
(Bernard Ziegler)


Recordo hoje, não os tempos de chumbo de uma Lisboa salazarenta que não via ainda nitidamente (nem de forma subtil como nos contos e romances de Maria Judite de Carvalho, que não conhecia nesses anos de liceu), não os anos do exílio voluntário na Europa do frio, mas o tempo da inocência feliz, quando o mundo não tem sombras e o corpo conhece apenas o júbilo da luz sobre a cal branca. Os anos da luz e da cal, das caiaduras ao anunciar-se mais uma Primavera. Para nós, nesses anos, só havia primavera.


Hoje posso, sem nostalgia, apenas com o prazer de sobrevivente dos anos, correr, em pensamento ou in loco, ao encontro dessa luz, de uma paisagem que a distância transfigura, mas é mais viva do que nunca, e tem lugar e nome. Aquela local habitation and a name de que fala já Shakespeare (em Sonho de Uma Noite de Verão), condição essencial do sentimento de pertença sem fanatismo nem paroquialismo.


Vejo aí terra e sol escaldante, uma rua e uma casa, rostos que se ausentaram, e outros que ainda podemos ver e tocar. O quadro contém, natruralmente, reminiscências inconfundíveis, farrapos de experiência, cheiros e cores e sons. Transformáveis em matéria para pensar, num momento em que, mais do que a caminho, estamos já a preparar a partida. Serenamente, como quem ouve uma música a chamar ao longe, e sabe que ela vai acabar (como esta que escuto agora, o andante moderato da quarta sinfonia de Brahms). Mas no lugar para onde esta música me leva, o que ouço agora são as cantigas das Maias, com ecos de branco e vermelho. Nesse lugar da infância estão todas as cores e todos os sons. Aí, é o reino onde tudo está no lugar certo, porque o desacerto só vem quando lhe damos nome. Sem nome, é território de sonho, mas palpável como poucos, anos depois. Estou a vê-lo e a cheirá-lo como se fosse hoje.


Eram os campos da Corredoura ou da Tapada dos Fornos, com eiras de brincar e carrinhos feitos de arame e latas de conserva, à beira de searas e favais; as mestras do Álamo e da Rua Larga, onde se aprendiam as primeiras letras, o ponto de cruz no bastidor e a obediência; as brincadeiras de pé descalço na rua, os jogos da «pata», do «eixo» e com a bola de trapos no «cantinho»; os dedos e a boca lambuzados debaixo das grandes amoreiras das Escolas Velhas; as Maias e as touradas à vara larga. Era o cheiro da esteva e do piorno a sair do forno do pão, e a «tiborna» com ele ainda quente, azeite e sal, para aquecer a alma em tempos em que o frio matava. Eram as saídas até ao lago e o medo dos ciganos, as brigas no adro da igreja de Santo António, as mobílias em miniatura feitas a preceito e os terrores da guerra distante, mas presente nas senhas de racionamento.


O mundo era feito de contrastes e injustiças, mas, de algum modo, estava em ordem — mesmo quando o padre Zé Agostinho, de maus fígados, tratava mal o povo e dava bofetadas no pessoal menor, mesmo nas tardes em que eu me encostava à parede na Rua dos Arcos para, com um misto de temor e inveja, deixar passar a charrete do senhor director da C., com os seus luzidios cavalos lusitanos.


O mundo estava em ordem porque ali quase não chegavam jornais — a não ser ao «Grémio», mítico lugar subversivo e onde se ouviam, nas longas tardes de domingo, os empolgantes relatos de hóquei em patins com os «cinco violinos» — Emídio Pinto, Edgar, Jesus Correia, Correia dos Santos e Perdigão —, a arrecadar tudo quanto eram campeonatos da Europa e do mundo.
Aprendi muito mais tarde que o tempo, implacável fonte de rugas, envelhecimento e morte, também pode ser pródigo com quem sabe conservá-lo vivo. A memória é uma fonte de Castália que inspira e rejuvenesce quem bebe da sua água. Quando isso acontece, por poucos momentos que seja, o mundo volta a ser (quase) perfeito. Até que as notícias do dia lhe venham perturbar a superfície límpida. Uma superfície que para mim se fez — e, constato, volta a fazer-se cada vez mais — de uma matéria insifnificante e aparentemente inesgotável como a luz branca nas paredes caiadas. Será nisto que cada um de nós, como diz o filósofo, não sendo imortal como os deuses, pode ser eterno.


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