28 fevereiro, 2014

DO PESO E DA LEVEZA DA POESIA

Acabo de receber o voluminho com um ensaio meu sobre o peso e a leveza da palavra da poesia, saído na Lumme Editor, do Rio de Janeiro, na colecção «Mobile», dirigida pelo professor e escritor Manoel Ricardo de Lima. Deixo aqui alguns excertos da parte introdutória, que circunscrevem o tema e os caminhos seguidos. Um conjunto de três ensaios sobre a poesia, em que se inclui este, deverá sair brevemente em edição portuguesa da Documenta. A fotografia da capa e as restantes são de Maria Etelvina Santos.


O poço e a espiral da memória podem ser as metáforas que consubstanciam as vias de acesso ao tema que aqui se tratará, para tactear os meandros do peso e da leveza na linguagem da poesia. Ou então, para chegar aos fundos do poço obscuro que conferem densidade à palavra da poesia, e da espiral por onde ela, alada, alcança sentidos sensíveis acima das significações correntes, o ponto de partida poderia ser este: tentar recordar-me de tudo aquilo que, no meu convívio com os textos e com a voz que os faz viver, em particular os de poesia, sugira variantes ou momentos diversos que, numa escala muito ampla, possam relacionar-se com um ou outro destes dois pólos, ou com ambos. O que re-cor-do (o que me ficou no coração) de uma longa experiência de contacto com a poesia é certamente mais da ordem da leveza do que do peso – apesar de uma boa parte desse convívio ter acontecido com uma tradição da poesia europeia, a alemã, geralmente vista como portadora de grande densidade. Para além do corpo mesmo do poema, que pode ser denso e intenso, a própria imagem que associo ao livro de poesia é a do portátil e leve, porque o corpo denso da palavra do poema é ao mesmo tempo da ordem do imaterial (veremos até que ponto, no que se segue, ficará claro este aparente paradoxo). Como já escrevi noutro lugar, só vejo a poesia «em pequenos volumes, quase tabuinhas de leitura breve, mas intensa. O leitor de poesia pede livros portáteis (mas não descartáveis) que possa levar consigo. [...] Perante alguns pavés de muitas centenas ou mesmo milhares de páginas de poesia, às vezes chego a temer que ela deixe de ter leitores, ou que certos poetas se fiquem por aí, pelo monumento [...], grossos volumes, quase impossíveis de manusear, mas investidos de alto valor monumental e comemorativo, como uma espécie de mausoléus da poesia.» (vd. A Escala do Meu Mundo, 2006). Mas o caminho poderia também ser o do esquecimento, no rasto de Derrida e da sua perseguição da poesia e do poético, melhor, do poemático, do poema antes do acto de o fazer, de o fixar para a memória pelo peso da escrita («apenas uma contaminação, tal e tal cruzamento, este acidente», diz Derrida). E então esse caminho seria o de um «desamparar a memória, desarmar a cultura, saber esquecer o saber, incendiar a biblioteca das poéticas» (Derrida, Che cos' è la poesia?).
[...]
A minha referência de partida, tal como o exemplo maior de que me servirei (um poema de Hölderlin, numa versão que constitui um dos primeiros ensaios de uma experiência em curso, de tradução de toda a sua poesia por uma via muito literal, e que dá particular atenção à materialidade dos ritmos, das imagens, da sintaxe, do corpo da palavra original), evidenciam uma abordagem perfeitamente convencional que hoje poderia facilmente ser substituída por outras portas de entrada, abrindo para toda a parafernália tecnológica à nossa disposição. A minha nada tem de rebuscado, nos exemplos práticos (a poesia) e nas referências teóricas que uso (só filósofos, pensamento na medida do possível não mediatizado), nem exigem meios especiais; e o método que sigo é o do velho comentário (de um único poema de Hölderlin, de onde, com o necessário enquadramento filosófico, poderia extrair quase tudo o que tenho para dizer). 
[...]

Perante um tema como este — o peso e a leveza —, em que qualquer dos termos, como a seguir veremos, é instável, junto-me à comunidade dos que não têm certezas, onde encontro um compagnon de route que muito prezo, Pascal Quignard, que me dá o mote: «Je ne cherche que des pensées qui tremblent» (Les ombres errantes, 2002). Pensamentos oscilantes, instáveis, incertos, mesmo inseguros – como a matéria que aqui nos ocupa. 
[...]

Os exemplos servem-me apenas para evidenciar uma tese, que agora poderemos fundar melhor em pensamento: peso e leveza, vistos como pólos de uma oposição binária, são inadequados e arbitrários para dar certas realidades, e revelam-se intercambiáveis. Quase nunca se podem atribuir as qualidades do peso e da leveza a um objecto em termos de exclusividade, muito menos a um objecto artístico, ou de linguagem. Em certos domínios, como nas artes plásticas, também a experiência da abstracção (a leveza do conceptual, não-figurativo) é simultaneamente a experiência da mais intensa concretude (peso da matéria). Para além disso, no seu uso comum, não científico e não filosófico, os dois termos contêm quase sempre uma grande carga metafórica que leva a um uso «impróprio» e — face ao rigor da indecidibilidade que marca as suas ligações — os torna inutilizáveis na esfera do pensamento ou da estética. Jacques Derrida parece corroborar esta impossibilidade de segregação entre os dois termos no célebre escrito de 1968 «A farmácia de Platão», desconstruindo o conceito do pharmakon — que em grego significa tanto «remédio» (o que alivia) como «veneno» (o que pesa no corpo e mata) — e, com ele, todo o binarismo da metafísica ocidental. De facto, como se situam esses dois termos  em  relação  a  realidades  como o pensamento, a palavra, a linguagem, a arte, a criação? Mas também a pedra, a água, o planeta,  a nebulosa;  ou  ainda  a  sensação,  o sentimento, a dor,  a paixão...?  Onde está o peso,  onde a leveza,  destas  «realidades»?  O chamar-lhes «realidades» – realia –, uniformizando o que é plural, universalizando o singular, materializando o imaterial, é já problemático. 
[...]

08 janeiro, 2014

LIMIARES:
Sobre Walter Benjamin


Acaba de me chegar, ao cabo de dois anos de espera, a edição brasileira (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina) de um volume de ensaios sobre Walter Benjamin, que coligi em 2011 e que fiz acompanhar do meu (primeiro) Diário manuscrito para W. B., a que chamei Ritos de Passagem, em forma de um CD-Rom folheável. Uma parte desse diário, aliás, foi surgindo nas páginas deste blogue, logo no seu início, mas a versão do CD-Rom é muito mais alargada.
Deixo aqui as três páginas da introdução a esse diário, que explicam o modo particular, cruzado, de leitura deste livro e do CD que o acompanha. E o índice do livro, que poderá agora acompanhar, no Brasil, a minha edição de Obras de Benjamin que está a sair numa outra editora, a Autêntica, de Belo Horizonte (sairam quatro volumes até à data). E ainda, do final do Diário, um poema de Hannah Arendt, hommage escrita depois da morte de Benjamin em Port Bou, em 1940.






29 dezembro, 2013

METAMORFOSES DO AMOR

Seguindo Ovídio, o grande mestre da ars amandi, pus-me um dia a reescrever algumas das suas histórias das Metamorfoses, histórias de amor e desejo, de cobiça e ciúme, de êxtases inomináveis e de mal-entendidos fatais. De uma maneira ou de outra, elas vão sempre dar  a esse grande «desconhecido que nos acompanha», o mundo, na definição de Llansol.
Deixo aqui algumas das que voltei a narrar, acompanhadas de gravuras que Picasso desenhou um dia para a edição do grande livro das transformações.


0.
Quando o mundo é cruel
o amor adoece e metamorfoseia-se.
E dá-se a ler, dia após
dia, nas mil faces de Eros
fazendo renascer
míticos pares  paixões  loucuras
de deuses humanos, demasiado
humanos, tal como Ovídio 
– um exilado ele também –
os foi escrevendo antes da solidão
tão negra como o mar que lhe banhava
o lugar do desterro.
As Metamorfoses fixaram para sempre
muitas dessas histórias.
E eu volto a contá-las
para iludir este longo e letal tempo
de espera sem mudança.

Quando o corpo adormece
nasce o desejo de narrar
e desvendar os caminhos
das transformações de Eros, o mais
proteico e múltiplo entre todos os deuses.


1.
Deucalião e Pirra

Depois do dilúvio, nós.
Únicos entre os milhões
que povoavam a terra,
o lodaçal sem saída.
Mas eis que o mundo se refaz
no pico do Parnaso ou
em cada lugar que te deixa
olhar para ti, sentir quem és
e voltar por instantes ao princípio
de tudo. Então somos só nós
o povo desta terra – 
frágeis seres sem certezas
a alma ensombrada por nuvens
o medo à espreita  o desalento
e o desejo tão grande de conforto.
Nesses lugares e nesses dias
os deuses falam connosco
na sua língua de enigmas
e dizem-nos que são nossos
os ossos da terra:
as pedras (e as flores, os anéis)
que ninguém nos pode negar
que apanharemos onde nos aprouver
lançando-as uma a uma 
para trás das costas_______

(e cada pedra
é a sólida rocha do amor
é um desejo que se cumprirá
é a certeza de que há sempre
um recomeço.)


2.
Dafne

Tem Cupido setas mais poderosas
que as de Apolo, que um dia a grande Piton
venceu, e a si próprio com ramos
de carvalho a fronde coroou. O loureiro,
esse ainda não existia.
Duas setas disparou o perverso Cupido,
separando o que unir devera:
uma que ateia a chama,
outra que dela faz fugir.
Uma penetra a fundo na carne de Apolo,
a outra atinge a ninfa virgem do Peneu.
Arde o deus e persegue o abraço
da ninfa, o toque do seu cabelo
solto e sem adorno e o mais
que sob a túnica se esconde e paraísos
promete. E ela foge-lhe
como o sopro do vento, e ele
grita-lhe: «Tenho de seguir o amor!»
Foi o temor de amar e o saber-se
bela de mais para o deus e o não ter já
para onde fugir que a fez rogar
ao pai, senhor dos rios,
a metamorfose fatal e salvadora.
Mas Apolo perdeu-se também
pela beleza do loureiro, e a ele
também amou assim:
sentiu-lhe no tronco o peito
ofegante, nos ramos os braços,
abraçou e beijou o lenho. E disse:
«Se em forma de mulher te não tenho,
adornarás doravante a cabeça
de poetas, amantes e caçadores».
E o loureiro acedeu, feliz,
e parecia que a copa lhe sorria
como um rosto de mulher.

(O amor sobrevive a qualquer forma,
efémera e volúvel.)


3. 
Sirinx

Pela Arcádia corria descuidada,
servindo Diana, a deusa virgem, como ela
o arco usando (não de ouro, é certo,
mas não é menos nobre o de corno),
aquela a quem as ninfas chamavam Sirinx.
Era, naturalmente, a mais bela 
entre as Náiades, e uma vez mais
um deus (menor, desta vez, mas sensível)
por ela se transtornou e a seguiu.
E ela depressa junto ao pântano cai
nos braços do grande Pã: mas não foi
o seu belo corpo branco que o fauno
acariciou. Sem auxílio de deuses
(ou talvez andasse por ali o dedo feminista
de Diana), transforma-se a ninfa 
num tufo de canas, que o vento
lhe faz gemer nos braços, num lamento.
E uma vez mais a metamorfose
os separou e os uniu: maravilhado
com os sons que ouvia, inventou Pã
a flauta de seu nome, e proclamou:
«Ela nos manterá unidos!»

(A arte do amor sabe que pode perder
um corpo e ganhar música.)


4.
Europa

Da filha de Agenor não sei sequer
se amou o deus na forma do touro branco.
Que foi desejada e amada, isso sabemos.
Mas não se casam amor e violência.
E Zeus usou a cor branca da pureza,
a mansidão e o brilho precioso
dos cornos pequenos para atrair
e raptar a intocada Europa.
Ainda assim, é digna de ser contada
a história que, sendo breve, traça
o arco completo das artes do amor:
das espirais da sedução aos jogos de contacto
e destes à posse e rapto. Uma arte
que nem só os deuses têm.
Chega Zeus à praia onde brincava Europa,
touro cor de neve nunca pisada, olhar meigo
e doces maneiras,
como àquela batalha 
convinha. Não foge a virgem
à estudada atracção, e já flores lhe oferece, 
que ele rumina, ao mesmo tempo
a mão de beijos lhe cobrindo, mal
podendo adiar já o resto.
E na praia seus jogos continuam:
ousa Europa, inocente, saltar-lhe até
para o dorso. É o começo de uma dança
ardilosa que os leva, juntos,
primeiro à orla de espuma, depois
ao vai-vem distraído das ondas, finalmente
ao fundo pego daquele mar do meio
que tantas histórias destas conhece.
Mas Europa, ofuscada, só deu por si
quando o caminho era
sem regresso. Da praia só se via
a leve túnica enfunada, ao vento.
Ninguém sabe onde o deus a deixou.
Cadmo, o irmão, correu mundo em sua busca.
Perdeu-lhe o rasto, mas viveu muito
e encontrou o de Harmonia.
Mas também a ele o aedo, com voz funda,
adverte da ilusão de felicidade:
«Lembra-te de que terás sempre de esperar
pelo último dos teus dias, e feliz
não poderá dizer-se nenhum mortal
antes da morte.»

(Estranho oráculo: acreditará nele
quem um dia soube o que é amar?
Ou seria ele premonitório
da miséria de Europa?)


5.
Tirésias

Júpiter, a quem o néctar já toldava 
e a proximidade de Juno excitava, 
diz a brincar: «O vosso prazer 
é com certeza muito maior do que aquele 
que a nós, homens, nos é dado ter.» 
Juno nega. Só Tirésias, que, 
por ter tocado as serpentes sagradas 
que se amavam, durante sete outonos 
soube o que era ter corpo de mulher, 
e os dois gozos experimentou, 
pode com seu saber dar-lhes resposta. 
E o sábio (o primeiro transsexual 
da divina e humana história) 
deu razão ao pai dos deuses. 
Não gostou Juno, e em noite eterna 
mergulhou os olhos do ousado juiz. 
Não pode um deus mudar o que outro 
dispôs. Não voltará Tirésias a ver 
de Febo o brilho. Mas quis Júpiter 
que durante muito tempo o dom infalível 
da profecia ocupasse o lugar da luz 
roubada aos olhos do profeta.

(Fica a pergunta: que viu Juno, a mulher, 
de mal na verdade? Ou no prazer, 
insuperável, dos seus múltiplos orgasmos?)

 
6.
Eco

No tempo em que Eco era ainda
uma ninfa faladora que a tudo
e todos respondia, os seus olhos
pousaram um dia no corpo do belo
rapazinho que todos no bosque
cobiçavam, rapazes e raparigas.
Passou a seguir-lhe os passos
por trilhos de caça e campos
nunca pisados, e quanto mais o seguia
mais a chama se acendia no seu peito.
Quantas vezes não desejara
aproximar-se e falar-lhe
com aquelas palavras de amantes
que a natureza lhe proíbe dizer
em primeiro lugar. E assim espera,
ansiosa, pelos sons vindos
da boca dele, e lhes responde.
E ele, perplexo, sem perceber
por que voltava a ouvir o que dizia.
Um dia gritou à sua própria voz:
«Vamos reunir-nos!», e Eco
fez ouvir a mais desejada 
resposta de sempre: «... Unir-nos!»,
e saiu da floresta e enlaçou-o.
Mas ele foge, liberta-se do abraço
e ameaça: «Antes a morte
do que saber que vens para me amar!»
E Eco deixa ouvir: «... Saber que vens 
para me amar!» Mas despede-se,
retira-se para as cavernas e cobre
de folhagem o rosto desprezado.
Permanece o amor, e cresce nela a dor
que consome o triste corpo.
Ficaram a voz e os ossos petrificados.
Desde então, o seu destino
é o de, nunca vista, por todos ser ouvida.

(E vive eternamente só som.
Quantos vivem eternamente sem corpo?)


7.
Narciso
 
Quando da ninfa azul, Liríope, 
nasceu Narciso, perguntaram a Tirésias 
se ele viveria muitos anos. E o cego disse: 
«Se a si mesmo se não conhecer!» 
Quinze anos teria Narciso quando um dia, 
depois da caça, descobre a fonte 
de água sem mácula e, ao beber, 
outra sede, que não a de água, sente: 
a daquela imagem que do lago o chama, 
ser de paixão, belo como uma estátua 
de mármore de Paros. 
Nega-lhe o espelho o beijo 
de cada vez que se aproxima, 
e uma voz lhe diz: «O que desejas 
não existe, mas veio contigo, 
contigo ficará, se ficares, 
e desaparecerá, se dele conseguires   
separar-te.»  Não se afasta Narciso, 
e uma doce loucura desce 
sobre os seus olhos: «Nunca ninguém, floresta, 
assim amou e assim sofreu. Mas os amantes 
são presas da ilusão, e é tão pouco, 
afinal, o que os separa! Consome-me 
o amor por mim, atiço a chama 
que me queima. Não me pesa 
a morte, e vida só desejo àquele 
que amei. E sei que juntos partiremos, 
numa só alma. Adeus!» 
E «Adeus!» lhe responde ainda Eco. 
Choram-no junto à fonte as Náiades, 
as irmãs, e as Dríades, e ouve-se ao longe 
o carpir de Eco com elas. E ao buscarem 
o corpo encontram, em seu lugar, 
uma pequena flor amarelo-açafrão. 
O coração é de pétalas salpicadas de neve.
                
(É tão pouco o que separa amantes
e tão fácil a queda na loucura.)



8.
Píramo e Tisbe

Viviam paredes meias na cidade
que emparedou Semíramis: Babilónia.
Os pais se encarregaram de proibir
o amor que o tempo fez nascer e crescer.
Na parede que as duas casas une e separa,
uma fenda cúmplice, que só o olhar
dos amantes descobrira: mas por ela
nem a mão nem um beijo passam,
apenas a voz sussurrada manda
e recebe juras e carícias.
Não suporta amor separação.
Decidem um dia iludir os olhares
que os guardam e fazer
da noite companheira
junto ao túmulo de Nino, sob a grande
amoreira que namora o lago.
Chega Tisbe primeiro, senta-se
debaixo da grande árvore. Espera
e vê chegar, sequioso, um leão. Foge
para a gruta, deixando atrás de si
o manto que a fera, de juba ensanguentada,
cheira e desfaz. Lê Píramo, ao chegar,
nos vestígios a morte da amada
e ali mesmo ao aço frio a vida entrega.
Jorra o sangue, escurece os claros frutos
e as raízes bebem da negra seiva.
Regressa Tisbe, confunde-a a cor escura
das amoras. Mas um frémito a percorre,
como o do mar quando o zéfiro o beija, 
ao ver o corpo, a ferida, o sangue.
A espada toma, para unir na morte
quem a parede e o mundo separara.
Mas esse mesmo mundo, e os deuses,
as últimas vontades lhe fizeram:
na mesma urna as cinzas dos amantes
juntaram e, em sinal de luto, às amoras
maduras para sempre a cor escura deram.

(Também Romeu e Julieta só encontraram
a fama na tragédia que escolheram.)


9.
Salmácis

Filha das flores, a hippie entre as ninfas 
antigas, incapaz de caçar, trocou 
a aljava pelo ócio. Banhava as pernas 
de leite no lago até ao fundo claro, 
por onde também se perdia em tardes quentes 
o efebo filho de Mercúrio e Citereia. 
Um dia, sua caça haveria de ser! 
Depois de pentear os cabelos com pente de buxo, 
depois de pôr o vestido de luz que o corpo lhe revela, 
feito com ramos frescos, ervas e flores o leito, 
Salmácis, espírito da sedução, aproximou-se 
e ofereceu ao jovem ignorante do amor 
o tálamo nupcial. Ruboriza o efebo 
e ameaça: «Vai-te daqui, ou nunca mais 
no lago me verás mergulhar.» Parece a náiade 
aceder, mas a astúcia aconselha-a a esconder-se. 
Fora de si, ardendo de desejo fica 
quando o rapaz deixa cair as vestes 
e o corpo ainda tenro entrega às águas. 
Consome-se ela, enquanto ele na água resplandece, 
lírio de neve, estátua de marfim 
em campânula de cristal: «Meu será!», grita, 
e ao mesmo tempo lança para longe 
os últimos linhos que lhe cobrem o corpo, 
corre para o espelho das águas, envolve 
em abraço de serpente, de hera, de mulher
o corpo que beija e acaricia – e que a repele. 
Mas ela, filha de deuses, fala: «Numes, 
não deixeis que jamais ele 
de mim e eu dele me separe!» E os dois corpos 
se juntaram na água, enlaçando os membros, 
e formaram um duplo ser, nem efebo nem ninfa, 
parecendo ser nenhum deles e ambos. 
E mais decretaram os deuses 
que quem naquelas águas se banhasse 
como ser duplo havia de sair.       
                
(Nasceu o andrógino naquele dia, a figura
que melhor dá conta da natureza misteriosa
e múltipla do amor. E foi uma mulher
que em paixão o fez nascer.)



10.
Medeia

É fulminante a paixão, e cega.
Chega Jasão ao reino bárbaro
e o fogo apodera-se dos sentidos da virgem
e sacerdotisa da Cólquida. Em vão resiste,
um novo deus se atravessou no seu caminho:
força desconhecida, que Hécate ainda
lhe não havia revelado, a domina,
e mais forte é o desejo que a razão.
O mesmo novo deus que gera a paixão
a atrai e leva a trair pai e pátria.
Mas o pai, esse é insensível,
mas a pátria, essa é bárbara,
e no olhar de Jasão abre-se-lhe o mundo.

(Pelo menos assim lhe pareceu.
Da segunda parte desta saga intensa
e trágica não darei conta.
Não atrai a degeneração do amor.
Só é narrável o germinar e crescer da paixão.)


11.
Filémon e Báucis

Não haverá mais singela história de amor.
Começa na velhice e a memória 
a conta em poucas palavras:
Na cabana entre tília e carvalho,
no alto do monte frígio,
sempre viveram em desejada humildade.
Também no amor muito não pediram:
aí se encontraram e se deram
nos verdes anos, aí testaram
a têmpera do amor pleno no verão
e no outono da vida, daí partiriam,
serenos,
ao cabo de um século
de amor sem tristeza.

(História impossível. Mas diz-se
que assim foi porque Júpiter
quis recompensar a única porta
que se lhe abriu naquelas paragens.
Melhor explicação seria a de que este amor
impossível terá afinal sido possível
porque a cabana ficava fora do mundo.)


12.
Ganímedes
 
É breve e simples a fábula 
do rapazinho cobiçado pelo pai dos deuses 
(é simples a lei da cobiça do corpo, 
e complexas as tábuas onde se inscrevem 
os desregrados caminhos do amor). 
Não conhece Júpiter diferença 
entre desejar e ter. Nem desta vez 
envolve a presa em demorados rodeios. Veste 
as penas fortes da águia, desce 
como o raio sobre a terra frígia onde brinca 
Ganímedes, filho de rei e émulo 
da divina beleza (mais do que isso seria –
de outro modo não se explica o desejo de um deus). 
Num ápice, rouba o mais belo corpo 
de efebo que as planícies de Ílion alguma vez 
tinham visto. Inicia-o nas artes do amor, 
das libações de néctar, e assim vivem,
perante os olhares ciumentos de Juno.

(Conheciam os deuses antigos todos os meandros
do desejo. Do amor pouco quiseram saber.)


 13.
Orfeu e Eurídice
 
A morte veio, apressada, pela boca da serpente 
no calcanhar de Eurídice, noiva ainda 
de poucas noites (as crónicas esquecem sempre 
este episódio, e ele explica tanto de uma paixão 
que passou os umbrais da morte!). 
Lançado que foi aos céus o longo treno, 
desceu Orfeu às profundezas de Perséfone: 
«Curioso não sou do teu reino, 
nem do tricéfalo monstro que o guarda. 
Por minha mulher venho. Venceu Amor, 
lá em cima deus bem conhecido. 
Aqui, não sei, mas só ele vos poderia 
unir assim, também a vós. Por ele te peço: 
Voltai a tecer o fio do destino de Eurídice. 
Ficar juntos apenas nos concedei. 
E se a ela o regresso for negado, 
ficarei eu para sempre entre as sombras do Hades.» 
E ao falar – mais canto era que fala – 
as cordas da lira toca tão pungentes 
que a anémica legião de espanto em si não cabe: 
imobiliza Tântalo a mão que se estende 
para o doce fruto que lhe foge, pára a roda 
de Íxion, deixa a águia de comer o fígado 
e Sísifo senta-se, enfeitiçado, sobre a pedra. 
São generosos os senhores do Tártaro, 
e Eurídice lhe trazem. Com ela vem 
a fatal condição, como sempre 
fazem os que o poder detêm: 
que nela os olhos não porá antes 
de deixar o vale do Averno. 
Não resiste o amor à provação 
(nunca amor entende a arbitrariedade), 
volta-se Orfeu e afunda-se Eurídice 
de novo nas trevas do Hades. 
Sem uma queixa: de assim ser amada
queixar-se também não poderia.

(Tem sempre amor um preço
e a morte sua desrazão.)


21 novembro, 2013

A UTOPIA DO HUMANO, 
OU «A MAGNIFICAÇÃO DO FEMININO»

Passou há dias no Festival de Cinema Lisboa-Estoril, depois de ter estado antes num cinema de Lisboa, a magnífica versão cinematográfica do Fausto por Aleksandr Sokurov. Aquando da estreia em Lisboa, falei do filme com Maria Filomena Molder, no cinema Nimas, e apresentei-o depois em Sintra, na «Letra E» do Espaço Llansol, salientando as ligações deste filme com o universo da escritora Maria Gabriela Llansol. Dessa sessão resultou um «Caderno da Letra E» a que os leitores deste blogue provavelmente não terão tido acesso, e por isso transcrevo aqui a minha introdução a essa publicação.




... o segredo da Busca é que não se acha.  
Fernando Pessoa, Primeiro Fausto (Fragmento X) 

À primeira vista, poderá parecer estranha a busca de relações entre um assunto clássico da esfera do mito, como é o de Fausto, e um universo tão centrado na imanência do quotidiano ou em sentidos outros para a História, como é o da Obra de Maria Gabriela Llansol. Mas não foi tanto a busca de ligações, que poderão parecer remotas, entre o universo Llansol e a matéria de Fausto o que nos levou a aproximar os dois. Foi antes o filme, recentemente exibido numa sala de Lisboa, do russo Aleksandr Sokurov, feito a partir da obra clássica de Goethe (e que iremos mostrar e comentar na «Letra E» do Espaço Llansol). O que Sokurov faz ao apropriar-se do texto de Goethe tem, isso sim, muitas afinidades com aspectos determinantes do projecto llansoliano de revolução da estética narrativa e de revisitação da problemática do Humano. O filme de Sokurov é uma adaptação muito livre do grande clássico da literatura, mas ao mesmo tempo muito próxima de alguns núcleos da história tal como ela é tratada por Goethe, em especial na primeira parte da sua «tragédia» – a do «pequeno mundo» preenchido pela matéria amorosa centrada na figura de Margarida, esplendorosamente tratada pelo cineasta; a reconstituição dos ambientes medievais de onde emana o mito; as ambiguidades e subtilezas, mas também o grotesco e a impotência da figura de Mefistófeles; a exploração do substrato utópico que subjaz a toda a acção, consubstanciado nos dois filões maiores do mito de Fausto desde as origens no século XVI: o desejo (e o tabu) do conhecimento e a entrega ao princípio do prazer. 

 Pintura de Ilda David'

Ora, aquilo que interessou a Sokurov (e que ele de facto vai buscar a Goethe, mais do que às origens medievais do mito) é o sentido universal desta matéria: subsumir numa figura e na sua eterna nostalgia, e de uma forma mais crua e menos filosófica do que em Goethe, toda a problemática da «humana geração». É este também o projecto do humano fora da trama dos poderes, que sustenta grande parte da Obra de Llansol desde O Livro das Comunidades. Noutro lugar defini já esse projecto como «uma bio-cracia, qualquer coisa como uma aisthesis universalis sob o signo, não do tempo da história e das suas figuras (porque 'chegou o momento de sair da História e ir viver no mundo de seiscentos milhões e anos'), mas do 'Há' e de uma 'restante vida' transposta para o plano total, cósmico, do Ser». 


O filme de Sokurov dá esta perspectiva, quer na insuportável beleza, transfigurada pela anamorfose e pela luz, do rosto de Margarida, quer finalmente na grande cena da montanha, com os seus ecos de busca infinita e de impossível realização (ao «Para onde?» do eco da voz de Margarida responde aí Fausto com o seu: «Para mais longe»). No filme do russo, o excesso da matéria pura, das sensações, da brutalidade da vida, transforma-se, em momentos chave, na matéria etérea, mas ainda e sempre humana, da paixão. Em Goethe, a questão tem dois momentos. O primeiro, da aspiração sem limites, depois de selado o pacto com o Diabo (que no filme não se chama Mefistófeles, mas Maurício, e é um agiota): 
 
 Pintura de Ilda David'
 
A minh'alma, curada a sede de saber,  
Abrir-se-á agora a toda a provação,
E no mais íntimo de mim quero viver
O destino de toda a humana geração;
Em espírito abarcar alturas, profundezas,
Encher o peito de alegrias, tristezas,
E assim meu ser ao seu Ser alargar,
Para no fim, como ela, soçobrar.

Depois, na fala final, antes da morte, o da utopia visionada de um mundo mais humano:

Esta é a ideia que havemos de aceitar,

Esta é do sábio a suprema verdade:
Só quem dia após dia a conquistar
Merece a vida e a sua liberdade.
E assim passam, em perigos sobre-humanos,
Crianças, homens, velhos, duros anos.
Visse eu esse bulício efervescente,
P'ra solo livre pisar com livre gente!
A um momento tal então diria:
Suspende-te, tu que és tão belo!
O rasto dos trabalhos e dos dias,
Nem eternidades podem apagá-lo. —
No antegozo de tão feliz evento
Desfruto agora do supremo momento. 


Se olharmos agora, por um lado para a ideia, por outro para o plano estético do filme de Sokurov, tornar-se-ão evidentes alguns paralelos com M. G. Llansol, o seu mundo e os processos inovadores da sua escrita. Do mesmo modo que Llansol dirá que se situa fora da «literatura», igualmente se poderia afirmar que Sokurov está fora das formas dominantes do «cinema»: Llansol afirma uma textualidade contra a narratividade reinante, e para isso a sua escrita terá de recorrer sobretudo às potencialidades sensíveis e imagéticas da linguagem; por seu lado, Sokurov transformará os seus planos cinematográficos em «telas» de uma beleza quase irreal, através do recurso à anamorfose e à transfiguração (Fausto e Margarida – esta, apesar do seu recorte mais singelo e não complexo – são mutantes, a sua verdadeira natureza é a da metamorfose contínua); não podendo filmar, como diz, a matéria filosófica abstracta do Fausto, é levado a encenar teatralmente, a pintar cenas em movimento. Entre o cinema ascético de filmes anteriores, como Mãe e Filho ou Pai e Filho, e o ornamental, de A Arca Russa, o Fausto de Sokurov explora em cambiantes várias uma estética da composição visual e da sensualidade plástica, sem naturalismos, mas com todos os sentidos (até os cheiros, e com o «brumor» da música em pano de fumo) a emanar da tela, num casamento em que o classicismo dos meios não rejeita as mais sofisticadas tecnologias para obter estes resultados. 

No plano das ideias, os paralelos são vários, e poderiam resumir-se em alguns tópicos mais evidentes:
– a exploração de um reverso da «luz comum» llansoliana (a que ela chama também o «senso normativo» das existências mais ou menos apagadas: Os Cantores de Leitura, 222), estando esta luz sempre presente, em aspectos diversos do quotidiano que, quer o filme, quer os textos de Llansol trazem a primeiro plano;

– a inserção frequente de cenas fulgor no turbilhão do acontecer, epifanias de beleza, aparições da pura matéria sensível, sem metafísica, que no filme emergem, tanto do corpo (rosto) de Margarida (a mulher, o princípio do feminino), múltiplo e finito, como do espaço cósmico ilimitado do «grande mundo» dos glaciares da montanha, e em Llansol podem saltar de qualquer experiência quotidiana;
– a busca da pujança do Vivo – muito para além do «orgânico» –, e do Humano – para além da História dos homens –, que alimentam Fausto, Sokurov e Llansol. Nesta, o momento mais visível deste projecto é o das duas trilogias, «Geografia de Rebeldes» e «O Litoral do Mundo», enquanto o Fausto de Sokurov se insere também numa tetralogia que começa por explorar o tema do Poder e dos seus mecanismos no plano histórico, entre Lenine (em Taurus), Hitler (em Moloch) e Hirohito (em O Sol), para desembocar na utopia concreta da superação desses poderes por meio da afirmação da eterna insatisfação do indivíduo;
– chega-se assim à afirmação do poder do desejo (que abre horizontes sem fim) contra o mero desejo de poder (que cerceia as possibilidades de uma humanidade plena);
– no filme de Sokurov e nos textos de Llansol assistimos a uma tentativa de anulação do tempo, com a consequente espacialização de cenas e planos;

– em ambos, no ritmo do filme e nas constantes saídas do «real» do texto de Llansol, torna-se evidente uma vertigem do alucinatório que lança o espectador e o leitor para insuspeitadas e por vezes assustadoras zonas do Ser (Llansol lembra muitas vezes que não há escrita sem medo, e que é necessário sair da luz comum e entrar na «metanoite», a zona de risco indissociável de toda a criação). 



O lugar último do encontro possível destes dois transgressores poderá ser, ainda na esteira de Goethe, o do Eterno Feminino como objecto decisivo de uma busca que coloca no lugar do valor de troca, que rege os destinos humanos na História, o valor do Eros, categoria na qual convergem, em Goethe, como em Llansol e Sokurov, o Amor e a beleza, o «dom poético» e a mais radical «liberdade de consciência» (em Inquérito às Quatro Confidências encontramos o Anjo de Eros, cuja função é «defender-se do não-ser»). O poder dizer ao momento de vivência plena, pura manifestação da imanência, «Fica, tu que és tão belo!», constitui, segundo o filósofo Ernst Bloch, «a mais rigorosa utopia do ser», «figura suprema da inquietação» e do desejo que move o mundo, em Fausto ou nas figuras dos livros de Llansol, que «'criam' seres futuros que não são projecções imaginárias, mas apenas necessidades insuficientes, a que também chamo reais não-existentes» (Onde Vais, Drama-Poesia?, 198). Com o seu sentido apurado do concreto, Goethe encerra o Fausto com as linhas, de registo profano e espinosista: «O Indescritível / Realiza-se aqui. / O Eterno Feminino / Atrai-nos para si.» Para Llansol, o horizonte último da sua espiritualidade imanente é o do sexo (de ler/escrever) sem género, espécie de anima mundi ou energia que tudo faz vibrar. Nela, é isso que «nos atrai para si» – mas não necessariamente para cima, já que aqui tudo se passa na ordem da imanência, ou do seu reverso ainda e sempre sensível. Mas o Eterno Feminino, ou a estrita experiência da Mulher (Margarida ou Helena de Tróia) no Fausto tem também a sua correspondência em Llansol naquilo a que, inspirada no místico sufi Ibn' Arabi, chama a «magnificação do feminino» (Finita, 193), «fornalha na qual os homens cairão para se sublimarem» (Livro de Horas II, 256). Estamos muito para além da oposição dos sexos, no campo de uma androginia universal em que «o feminino é chamado a tornar-se espírito» (Livro de Horas II, 68). É este o sopro ideal que anima a paisagem da utopia concreta, da atopia e da ucronia do filme de Sokurov e do universo Llansol.
 Pintura de Ilda David'