30 dezembro, 2014

O LUNAPARQUE DA LITERATURA
visto por Walter Benjamin


Ao cabo de quatro anos de interrupção, devida à mudança da Assírio & Alvim para o grupo Porto Editora, a edição das Obras de Walter Benjamin vai finalmente ser retomada em 2015, na mesma chancela. O próximo volume, o quinto desta edição portuguesa, reune textos conhecidos (como «A tarefa do tradutor» ou «O contador de histórias»), mas também muitos fragmentos raramente divulgados nas traduções de Benjamin, sobre teoria e filosofia da Linguagem, da Tradução e da Literatura (ou da sua crítica).
Um dos conjuntos de fragmentos, sobre teoria e crítica literárias, é de uma flagrante actualidade no que se refere aos caminhos de uma boa parte da literatura e da crítica (nomeadamente da crítica jornalística) nos agitados e decisivos anos entre as duas Guerras do século passado (os tempos pós-modernistas da chamada «Nova objectividade») e nos nossos próprios dias, em que o objecto da literatura e da crítica se desloca tantas vezes para o culto da personalidade, o fait divers mundano ou o puro comércio.
Para assinalar a continuidade da edição, dou a conhecer, em jeito de pré-publicação, alguns desses fragmentos sobre literatura e crítica em que Benjamin não poupa o seu tempo e as suas práticas, nem à esquerda nem à direita, e se revela implacável com uma situação epocal e cultural dominada por essa pretensa «objectividade» sem objectivo (i. é, sem «programa») e por uma voga anti-teórica no jornalismo cultural e na própria literatura dita «política» (i. é, burguesa de esquerda ou marxista), e atravessada por muitas contradições. Não sendo essas contradições as mesmas de hoje, nem estando este nosso tempo consciente das suas, os paralelos tornam-se evidentes quando lemos alguns destes esboços de uma crítica da crítica e de dissecação da literatura por Benjamin. Muitas vezes, mais não será preciso do que introduzir uma ligeira variante: onde se lê «alemão», leia-se «português», onde se lê «a nova objectividade» alemã, leia-se por exemplo «a nova ordem do espaço literário» português, ou mudem-se os nomes dos prémios. Depois, basta ler as secções de crítica (se as encontrarmos), as reportagens e entrevistas dos nossos jornais, para se confirmar como Benjamin, sem o imaginar, estava a falar de nós.

CONSELHO AOS MECENAS (1929)
O baixo nível a que chegou a crítica literária alemã não é segredo para ninguém. Mas as razões que o explicam talvez sejam. Entre elas destaca-se a falta de camaradagem, de espírito de oposição, a falta de uma clareza nas relações dos que escrevem uns com os outros. Daí a marca espantosamente incaracterística das nossas tendências literárias e dos seus representantes, e a triste dignidade de uma crítica que mais não é do que a expressão do horizonte limitado e abafado em que é praticada. O humor precisa de liberdade de acção e espaço para respirar. Um mecenas inteligente que queira ajudar a literatura alemã terá de desistir de encontrar novos talentos. De lançar novos laureados com os prémios Kleist ou Schiller. Em vez disso, que pense bem na seguinte sugestão: construir o lunaparque da literatura alemã. O terreno não precisa de ser muito grande, mas as suas possibilidades são ilimitadas...
Depois da cerimónia inaugural, um coro avança e diz mais ou menos o seguinte: «Nada que valha a pena.» 



PERFIL DA NOVA GERAÇÃO (1930)
Enquanto os escritores avançam, alegres e contentes, de um livro para outro, nós não conseguimos ver onde existe no seu trabalho uma evolução, e acima de tudo onde existe algo de estável, a não ser no aspecto técnico. O seu esforço e a sua ambição parecem esgotar-se em arranjar uma matéria nova, um tema que agrade, e é tudo. 
Sempre existiu literatura de entretenimento – quero dizer, uma literatura que nunca assumiu qualquer forma de compromisso com o seu tempo e com as ideias que o movem, a não ser talvez o de propor o consumo dessas ideias numa forma agradável, confeccionada de acordo com o estilo da moda. Essa literatura de consumo tem direito à existência, e sempre encontrou o seu lugar e a sua legitimidade, pelo menos na sociedade burguesa. Mas aquilo que nunca aconteceu, nem na sociedade burguesa nem em qualquer outra, foi uma situação em que essa literatura de puro consumo e entretenimento fosse identificada com uma vanguarda... 


A TAREFA DA CRÍTICA (1931) 
Sobre a tremenda ilusão que é pensar que o factor determinante para se ser crítico é ter «opinião própria». De nada serve conhecer a opinião de alguém que não se conhece – sobre o que quer que seja. Quanto mais importante for um crítico, tanto mais a pura opinião pessoal será um caso de excepção, tanto mais o ponto de vista absorverá a opinião. Pelo contrário, o grande crítico será aquele que, através da sua crítica, dá aos outros a possibilidade de formar uma opinião sobre a obra, em vez de ser ele a dá-la. Este traço da figura do crítico não deve, porém, ser privado, deve antes ser uma determinação objectiva e estratégica. De um crítico deve saber-se o que ele defende, e ele deve dar a conhecer a sua tendência. [...] 
No verdadeiro crítico o juízo propriamente dito é o último a que ele chega, e nunca a base do seu trabalho crítico. A situação ideal é aquela em que ele se esquece de emitir um juízo. 


FALSA CRÍTICA (1930-31)
Não será essencial, ou mesmo útil, para a crítica orientar-se sempre explicitamente por ideias políticas. Mas isso é absolutamente necessário para a crítica polémica. Quanto mais pormenorizada for a imagem pessoal que avança para primeiro plano, tanto mais terá de haver um consenso entre o crítico e o seu público sobre a película, a imagem do tempo que lhe serve de pano de fundo. Mas toda a autêntica imagem de época é política. E a miséria crítica da Alemanha vem-lhe do facto de a estratégia política, mesmo no caso extremo do comunismo, não coincidir com a literária. É o destino fatal do pensamento crítico, e talvez também do político.
... A mera objectividade crítica, que, caso a caso e sem segundas intenções, não tem nada a dizer para além do seu juízo particular, acaba sempre por ser desinteressante. Esta «objectividade» mais não é do que o reverso da ausência de perspectivas e de directivas de uma prática de recensão com que o jornalismo aniquilou a crítica.
O que é próprio desta objectividade, a que se poderia chamar nova, mas também desprovida de consciência, é que nos seus produtos, em última análise, a bona fides vai sempre dar à reacção «temperamental» da figura original de um crítico. Esta criatura, cândida e despreconceituada, de que a crítica burguesa tanto se ufana, na verdade é apenas a expressão do zelo servil com que o jornalista cultural satisfaz a sua necessidade de figuras marcantes, temperamentos fortes, génios originais e personalidades. A honestidade desta estirpe de crítico é puro fogo de artifício; e quando mais fundo for o tom de convicção, tanto mais fétido é o seu hálito.  
Nada diz mais sobre o nosso meio literário do que as suas tentativas de alcançar os maiores resultados com o menor investimento. O acaso jornalístico veio substituir a responsabilidade literária. É absurdo o modo como os literatos da «Nova Objectividade» exigem repercussão política sem investimento pessoal. Este investimento pode ser prático, e consistir numa actividade político-partidária disciplinada; e pode ser literário, através da exposição da vida privada, de uma intervenção polémica generalizada, como acontece com o Surrealismo em França e com Karl Kraus no espaço alemão. Os literatos de esquerda não fazem nem uma coisa, nem outra. E temos de desistir de concorrer com eles na luta por um programa de «literatura política». Porque quem se aproxima do carácter mediador, e mais ainda do efeito de mediação da escrita burguesa séria, terá de reconhecer que aí se diluem as diferenças entre a literatura política e a apolítica. E que aparecem de forma mais nítida as diferenças entre a literatice oportunista e a radical. 

PARA UMA CRÍTICA DA «NOVA OBJECTIVIDADE» (1930-31)
Já é altura de tomarmos consciência de que o tão afamado recurso aos factos tem, na verdade, duas frentes. Por um lado, combate a ficção estranha à realidade, as «belas-letras», e por outro lado insurge-se contra a teoria. É o que nos mostra a experiência. Nunca, como hoje, uma geração de jovens escritores mostrou tanto desinteresse pela legitimação teórica  do seu prestígio. Tudo o que vá para além de uma argumentatio ad hominem já está fora dos seus horizontes. Como poderia ela chegar a um esclarecimento teórico das suas posições, se essas posições estão voltadas para dentro e excluem em si mesmas todo e qualquer ponto de vista mais lúcido?  




Muito característico da crítica de hoje: quase nunca compromete mais um autor do que quando elogia. O que estaria em ordem, se ela não elogiasse precisamente o que é menos meritório. 

Neste território tudo assenta numa certeza: a de que ninguém irá estragar o jogo de ninguém.
 
 




26 dezembro, 2014

VEM AÍ UM NOVO ANO


12 dezembro, 2014

ENCONTROS E TRAVESSIAS
Um volume de homenagem


Deixo aqui, para além do meu agradecimento, a reconstituição possível do que disse e li ontem, na sessão de homenagem que, por iniciativa de ex-colegas de várias universidades e da APEG-Associação Portuguesa de Estudos Germanísticos, teve lugar no Goethe-Institut, em Lisboa. Na ocasião, depois das intervenções da actual directora do Goethe-Institut, Claudia Hahn-Raabe, e da representante da APEG, foi-me entregue pela Profª Ana Maria Bernardo essa 'Festschrift' com contributos que cobrem um vasto espectro, dos estudos sobre temas germanísticos à teoria da literatura e da tradução, da poesia original a versões de poemas alemães, dos estudos de recepção aos depoimentos mais pessoais, da filosofia ao teatro, tudo isso cabendo no espaço que me é mais próximo e mais caro, o do ensaísmo na acepção mais ampla do termo.


 
Trouxe, para agradecer esta homenagem, um poema de Brecht que me diz muito e que me parece perfeitamente ajustado para esta ocasião. Antes de vos ler a tradução que dele fiz há dias, duas ou três notas apenas. 

1. O melhor que posso fazer para vos agradecer é lembrar que o sentido de uma vida se vislumbra quando percebemos que o mais importante foi aquilo que demos, as portas que abrimos quando entramos numa sala de aula, ou escrevemos num jornal (como gostava de salientar um grande amigo já desaparecido, o Eduardo Prado Coelho), também quando traduzimos um grande autor, acrescentaria eu agora. Enfim, todos aqueles momentos em que respondemos aos apelos que nos chegam pelas mais diversas vias.
Faz todo o sentido evocar neste contexto a escritora de cuja Obra há alguns anos estou mais próximo, Maria Gabriela Llansol, e o que ela escreve num dos seus diários: «Perguntar 'quem sou?' é uma pergunta de escravo; perguntar 'quem me chama?' é uma pergunta de homem livre.» Levei algum tempo a compreender esta verdade, que a princípio me parecia um tanto contraditória. Hoje reco- nheço que estamos, particularmente neste nosso momento histórico, demasiado viciados no culto do eu, e insistir cegamente na primeira pergunta fecha-nos cada vez mais sobre nós mesmos. Já a segunda, correctamente entendida, significa a disponibilidade, em liberdade, para atender aos apelos (escolhendo-os, naturalmente), e entrar no espírito da «troca verdadeira». Mais tarde, num caderno inédito do espólio, Llansol deixa a seguinte anotação: «Escrever é renunciar infinitamente ao que se crê ser.» E também outro dos meus autores de eleição, Walter Benjamin, decidiu um dia, muito cedo, eliminar a palavra Eu da sua escrita. 
 
2. O tipo de volume que acabo de receber, em cuja capa se lê que se trata de uma «Homenagem a...», tem em alemão (uma língua mais plástica, visual, directa, do que o português) um nome que me serve também agora: Festschrift. Os dois elementos que o compõem, Fest+Schrift, dizem-nos que se trata da escrita como uma festa, de uma festa da escrita.
Também essa festa se faz com a escrita dos outros, a que nos alimentou e iluminou; e só depois com a própria, que dela nasce e com ela se funde no diálogo do pensamento que ganha corpo de escrita, e também no métier (que é o de alguns de nós) da travessia arriscada da re-escrita do outro pela tradução.
Em qualquer dos casos, é sempre uma festa: das ideias, dos sentidos, da descoberta, da mão que escreve, e também – é essa a nossa esperança – a de quem nos lê. Não há festa sem outros, os que connosco con-vivem, nos chamam e por quem chamamos! Entrar nessa festa, ainda no sentido da frase de Llansol, é partilhar um espírito de «liberdade livre» (como um dia disse um poeta nosso). 

3. No texto de Brecht que trouxe – o poema, da fase da emigração (escrito em Svendborg, na Dinamarca, em 1937/38), Legende von der Entstehung des Buches Taoteking auf dem Weg des Laotse in die Emigration – vários são os momentos em que me revejo: os que falam do estado do mundo, o gosto de corresponder aos apelos (que são sempre muitos), o velho ditado da «água mole em pedra dura...», a ideia de ensinar como quem respira, sem segredos, o gosto de escrever sete dias a fio, enfim, a vontade ou a necessidade da «emigração».
Também eu fiz uma dupla emigração, primeiro real, quando resolvi sair deste país, na altura cinzento e salazarento, e fui dar a Hamburgo, decidindo com isso o meu futuro percurso; e, desde há algum tempo, também uma «innere Emigration», uma emigração interior que me tem levado a retirar-me progressivamente do espaço público, sem com isso desistir de fazer o que me parece ter sentido para que alguns, eventualmente, se encontrem a si próprios neste mundo – sem lhe darem excessiva importância.
Só uma palavrinha no poema me não assenta bem, mas não pude evitá-la na tradução: o sábio. Certíssima para Lao Tse, völlig fehl am Platz, totalmente desajustada para mim – e para este nosso tempo, que desaprendeu toda a sabedoria, e muito menos sabe o que é a sageza. Como no caso de Brecht, poderíamos dizer que das Wissen (und noch mehr das Besserwissen) blüht, die Weisheit ist schwächlich, deutlich im Kurs gefallen. Para cruzar Benjamin com Brecht: o 'saber' impera (e ainda mais o querer saber melhor que os outros, o 'chico-espertismo', hoje globalizado!), a sabedoria e a 'experiência' (como lembra Benjamin nos mesmos anos do poema de Brecht) andam muito por baixo, e a sua cotação é fraca!
Antes da Lenda de Brecht, apenas três pequenos poemas de um outro dos meus autores, esses sim, fruto de muita sabedoria: os do Goethe das Zahme Xenien (Xénias Mansas), poemas irónicos, por vezes atravessados já por uma certa melancolia, de uma fase adiantada da vida, que traduzi em tempos para a edição que fiz também da sua poesia: 

               De ideários e idealismos
               Que levo quando me for? 

               Nunca fui escravo de Ismos, 
               Fui sempre o eterno amador. 

                                     *

               «Tão calado e pensativo!
               Tens algum problema? Qual?» 

               Eu estou satisfeito, amigo, 
               Mas assim sinto-me mal! 

                                     *
               Como irei eu partilhar
               A vida entre fora e dentro, 

               Se a todos tudo quero dar 
               Para viver sob um só tecto? 
               Toda a vida tenho escrito
                Como penso, como sinto,
               E assim, meus caros, me divido, 
               Sou sempre um só, e não minto. 


E agora, finalmente, Brecht: 

Bertolt Brecht
LENDA DA ORIGEM DO LIVRO DO TAOTEKING 
INDO LAO TSE A CAMINHO DA EMIGRAÇÃO  
[Svendborg, 1937/38

1
Ao entrar nos setenta, a carcaça cansada, 

Precisava de descanso o professor –
No país, para variar, a bondade era nada 

E a maldade, é claro, voltava a prosperar. 
Atou os sapatos, pronto para desandar. 

2
Meteu no saco tudo o que precisava:
Pouco. Mas ainda assim alguma coisa havia. 

O cachimbo que à noite sempre fumava
E o livrinho que há muito tempo lia.
E pão de trigo a olho, para o dia a dia. 


3
Uma vez mais o vale o fez feliz, logo o esqueceu
Ao entrar na montanha, que subia.
E o boi, feliz também, erva fresca comeu 

Ruminando, e com o velho no lombo, lá ia_____
Que este, se tinha pressa, não se via. 


4
Ao quarto dia, porém, entre penedos,
Um guarda aduaneiro os fez parar:
«Valores a declarar?» – «Não tenho segredos!» 

E o rapaz-guia do boi: «Mais não fez que ensinar!»
E tanto bastou para se explicar. 

5
Mas o homem, entre excitado e atento,
Ainda perguntou: «E a que conclusões chegou?»
Diz o rapaz: «Que a água mole em movimento 

Com o tempo a pedra dura dominou.
Estás a ver: o que era poderoso cedeu.» 


6
Para não perderem o sol derradeiro
O rapaz espicaçou o boi e
O grupo dos três dava a volta ao pinheiro 

Quando o nosso homem acorda, e mesmo ali 
Grita: «Alto lá! Pára aí! 

7
Que história é essa, velho, da água vencedora?»
O velho parou: «Queres saber?»
E o homem: «Eu sou um simples guarda,
mas agora
Esta de quem vence quem dá que pensar. 
Se sabes a resposta, terás de ma dar! 

8
Escreve o que sabes! Dita-o aqui ao rapaz! 

Coisas dessas não se levam deste mundo. 
Temos papel e tinta, e muito me apraz 
Dar-te ceia. Eu moro ali ao fundo.
E então? É pedir muito?» 


9
Por sobre o ombro, o velho olhou
Para o homem: casaco remendado, sapatos
nenhum.
Testa cheia de rugas. E pensou:
Não, não era um vencedor, aquele ali, meio nu. 

E murmurou: «É só mais um!» 

10
Era velho de mais, o velho, para dizer
Não a um pedido tão cortês.
E disse alto e bom som: «Temos de responder 

Aos que perguntam.» E o rapaz: «A noite cai, esfria, como vês.»
«Então paramos aqui, mais esta vez.» 

11
Já do seu boi o sábio se apeava
E durante sete dias a dois escreveram.
E o guarda trazia a comida (e em voz baixa
praguejava
Com os contrabandistas enquanto ali estiveram).
Até que um dia terminaram. 

12
E uma bela manhã o rapaz entregou
Ao guarda as sábias sentenças – oitenta e uma.

E agradecendo a merenda que levou
Foi-se o sábio, e passou o pinheiro na bruma. 
Dizei: haverá maior bondade, em suma? 

13
Mas não louvemos só o sábio que um dia 

Viu o seu nome na capa do livrinho!
Há que arrancar ao sábio a sua sabedoria. 

Louve-se o guarda que encontrou esse caminho –
Sem ele, o saber ficaria sozinho! 

30 novembro, 2014

O FIM DAS POSSIBILIDADES?


No passado dia 25, e no contexto da conferência organizada pelo Teatro Nacional de S. João, a minha intervenção, aqui reconstituída, sobre o ténue «perfil da esperança» deste nosso tempo... 
O pretexto foi a peça de Jean-Pierre Sarrazac (que também participou nas discussões) intitulada O Fim das Possibilidades. Uma fábula satânica, que estreará em Março de 2015 no S. João, encenada por Nuno Carinhas e Fernando Mora Ramos.


Pensei em várias formas possíveis para esta intervenção, do «ensaio falado» à colecção de aforismos para comentarmos, da reflexão sociológica (para que não estaria preparado) a um manifesto feito apenas de interrogações, ou talvez um manifesto surdo, kafkiano, como o do homem que fica anos sentado «À porta da Lei» sem nunca conseguir ter acesso a ela. Cheguei mesmo a pensar, dando por boa a sabedoria de Wittgenstein no final do Tratado Lógico-filosófico («Aquilo de que se não pode falar tem de se silenciar»), em assumir a pose – muito teatral, de resto – de responder com o silêncio ao ruído letal e insuportável deste tempo feito todo de propaganda (portanto oco, e perigoso). Poderia até ser um longo «silêncio falante/loquaz» como aquele de que falava já Hölderlin «em tempos de indigência» – se virmos bem, aqueles tempos que, há dois séculos, foram o berço onde nasceram os fundamentos de uma nova era que a breve trecho haveria de pôr à vista todos os males de que padece a civilização contemporânea, que parece ter chegado hoje ao auge dessa via catastrófica. E «a catástrofe» — escrevia Walter Benjamin nos anos trinta do século passado – «é as coisas estarem como estão.» Esses tempos – os do poeta – foram os da ascensão de classes burguesas que rapidamente deixaram para trás os seus ideais e que levaram ao nascimento de democracias entretanto apenas formais, à total mercantilização das existências, ao retrocesso actual para uma mentalidade inequivocamente fascizante, para a qual Brecht alertava logo no fim da última Guerra («Der Schoß ist fruchtbar noch / Aus dem das kroch» [É ainda fértil o seio / De onde essa coisa veio]).
Por isso, e apesar do eventual fascínio da intensidade teatral do silêncio, é preciso falar. E por falar entendo não apenas aquilo que estamos a fazer neste momento, como também aquilo que se escreve e é lido – ou dito em palco, como irá acontecer em breve com a peça de Jean-Pierre Sarrazac O Fim das Possibilidades. Porque é preciso dar testemunho, apontar o dedo, denunciar aqueles – os Com-rosto que conhecemos diariamente pelas televisões e os Sem-rosto que nunca veremos – que, como lembrava há tempos o filósofo José Gil numa crónica, «nos desapossaram do nosso presente». E com isto estamos já em pleno tema de fundo da peça de Sarrazac.

Em plano de fundo: Job | Fausto | J.B. | Deus | 'O Adversário'

Conversemos então, neste duplo palco (shakespeariano) onde se desenrola e onde podemos ver a grande e mísera parábola das nossas vidas aparentemente sem horizonte, numa época  paradoxalmente balizada, como lembrava há anos Michel Serres, por uma jamais vista potência de invenção, mas também por uma insaciável fome de formatação das consciências. Os dois palcos onde tudo isso se passa são o grande palco que é o mundo («the world is a stage», «el gran teatro del mundo»), onde nos sentimos hoje marionetas ou actores perdidos que já não sabem quais são os seus papéis; e – se aí couberem todos os desastres do mundo – o pequeno palco, «this wooden O», a arena de tábuas em que só a imaginação poderá apreender toda a escala do que (nos) está a acontecer – e uma vez mais não é apenas o Henrique V de Shakespeare que estou a evocar, antecipo a peça parabólica que é O Fim das Possibilidades: uma parábola do naufrágio com espectadores, na encruzilhada, a que assistimos no nosso dia a dia, inspirada no Livro de Job e no «Prólogo no céu» do Fausto de Goethe (que ecoa aqui literalmente), e que reflecte sobre o não-sentido de vidas que o não são, e sobre o sentido de possibilidade da morte livre como forma de afirmação da liberdade humana, que baralha os planos dos senhores do mundo e dos seus mandatários (isto se perceberá melhor quando virmos a peça).
Mas também se trata de uma grande parábola sobre a nossa condição histórica actual e os seus perigos, ou os fracassos dos seus desígnios, se houver quem resista, contradizendo o célebre aforismo de Adorno (em Minima Moralia, um livro de 1951) «não pode haver vida certa no meio da falsa». Há, ou pode haver, alguma vida certa no meio da falsa, e quantos mais forem os que se decidirem por «herdar as margens» (diria Maria Gabriela Llansol), pensando e agindo segundo esta última possibilidade, tanto maior será a probabilidade de evitar a vinda de novos «salvadores» e o total e final «desencantamento do mundo» (que o sociólogo Max Weber via já despontar há um século). O fim das possibilidades (ainda) não está à vista nesta nossa era do vazio, precisamente porque a certa altura ela se apresentou, ilusoriamente, como a era de todas as possibilidades, do anything goes, de um vale-tudo em tempos assumido como um dos grandes lemas do «pós-moderno». O mito da «pós-História» não se confirmará, e os seus próprios mentores, a começar pelo pai da ideia, Francis Fukuyama, já o reconheceram. O modelo que teria vindo ocupar o lugar de uma dialéctica viva da História, o da fatal desmemória, e consequente desprezo do Humano, que é o do capitalismo selvagem ultraliberal e da sua globalização hegemónica, pode estar aí para ficar, mas não será eterno. Todos os impérios tiveram a sua agonia. Há décadas que anda um novo espectro, não apenas pela Europa, como o do Manifesto Comunista de 1848, mas pelo mundo, e muito mais espectral do que o primeiro: o do reino de Mammon, o dinheiro, ainda e sempre, mas agora mais sem rosto e sem cheiro, e emanando de céus que desconhecemos. Os males do mundo – é o que podemos deduzir do prólogo da peça de Jean-Pierre Sarrazac – provêm desse céu infernal onde novos deuses desconhecidos gerem os nossos destinos – as vidas individuais de todos e cada um – através de testas-de-ferro (Satã, ou o Adversário) que dispõem estrategicamente por todo o planeta.

O reino de Mammon: o poder invisível

Como no Fausto de Goethe (também ele inspirado no Livro de Job), as nossas vidas e o nosso destino sobre esta Terra estão dependentes de uma aposta (hoje, de múltiplas apostas nesses antros de jogo ao mais alto nível que são as Bolsas de todo o mundo). Uma instância dominadora sem rosto (Deus não tem rosto nem nome, é simplesmente aquele/aquilo que é, exactamente como o capital anónimo!) faz uma aposta com um seu mandatário (Adversário, menos dele do que das criaturas humanas), para que este resolva, segundo as regras do sistema que ambos representam, e sem contemplações, as desgraças de Job (= a Multidão) ou de Fausto (que a si mesmo, na peça de Goethe, se vê também como «a humanidade») ou, na peça, do protagonista J.B. de seu nome. É todo um programa, e um negócio, social-democrata ultraliberal e ultra-radical! A «solução final» (!) desse gestor do mundo, uma espécie de CEO dos céus, e do seu acessor, um «executivo» que opera no terreno, é a que nós bem conhecemos: a das promessas (aqui, de reconversão do Inferno em Paraíso – lugar desinteressante e entediante, como sempre foram todos os paraísos), ou a da oferta (de um novo Eldorado – que se revela ser nada mais nada menos do que um campo, um novo gulag). Ambas se poderiam designar, com Jean Renoir, de A Grande Ilusão, que a nossa experiência já longa de eleitores confirma, ecoando as palavras do poeta alemão Jürgen Theobaldy já em 1976: «Estas eleições, dizia ele, / fazem-me sempre ver claramente / como vivemos: nunca / escolhemos aquilo / que realmente queremos, e sempre / ficamos com o que escolhemos...» E mais o Adversário e o seu mandante não têm para oferecer. Não há «plano B», nem de quem vem de cima (a quem o modelo único cegou), nem para quem está em baixo (que desaprendeu a acção radical e a revolução, porque lhe falta o incentivo maior: as grandes causas e um inimigo com rosto). E assim tudo tende para o fracasso: Deus desespera porque o seu «servo» (Job / Fausto / J.B.) pôs fim à vida sem Ele ser visto nem achado para aí; e Satã, o Adversário mais não é, afinal, do que um «pobre diabo» sem saídas nem imaginação (ele é, já no Fausto de Goethe, o «inimigo da luz», «o espírito que só sabe negar»; e assumirá esse estatuto de pobre diabo em vários Faustos do século XX, nomeadamente no Mon Faust de Paul Valéry); e os J. B. deste mundo, a Multidão, começam a acreditar que o mal está em nós – no conformismo e no pessimismo reinantes, ou na tendência fatídica para antecipar o apocalipse. Naturalmente que é o próprio Adversário quem prepara esse terreno e nos faz crer nisso: que somos seres de passado sem futuro, ou de um presente sem presença de vida. Homens-sombra, os «sem-rosto» da peça. Mortos sentados a uma mesa cada vez mais vazia, assente sobre areias movediças. É o que parece querer concluir a peça, ao ecoar o poema de Aragon «Est-ce ainsi que les hommes vivent?» (que conhecemos na voz de Léo Ferré) e o seu refrão:

On avait mis les morts à table
On faisait des châteuax de sable...
[Trouxémos os mortos para a ceia
Construímos castelos de areia...]

As possibilidades terão chegado ao fim? Na cena final, quase idílica, do banquete no jardim ecoam apenas como vozes quase inaudíveis aqueles que já tiveram corpo, a partir desse lugar utópico onde Satã/O Adversário faz as honras da mesa como mestre de cerimónias. Espectros num paraíso artificial onde tudo soa a artificial... E tudo neutralizado pelo grande contra-regra, Satã/O Adversário, que parece ter levado a sua a melhor...



 O poema de Aragon dito/cantado por Léo Ferré
*
Mas vejamos, fora da eventual mensagem da peça, o que (nos) está a acontecer, aqui e agora. Que o mesmo é dizer, olhemos para o mundo, o nosso, que outro não temos. Como Walter Benjamin, em conversa com Brecht no exílio, em 1934, sugeria: «Não vamos falar das coisas boas e velhas, mas das novas e más». Perguntemo-nos nós também onde estamos, sem nostalgias paralisantes, mas também sem renegar nem esquecer passados que explicam o presente – porque não se vive num ghetto da História, mas no fluxo da História. O que quer dizer que teremos de recuar 20-30 anos, ou mesmo ir até ao fim da Grande Guerra e à implantação de um modelo americano que se tornou hegemónico à escala global. E não nos preocupemos tanto em querer saber (como J. B., o visionário – ou será o lúcido? – da peça) para onde vamos – essa é a pergunta perigosa de quem julga saber os caminhos da História, e a resposta será sempre imposta por algum poder discricionário.
Fomos apanhados numa situação – como a Virgem grávida, sem perceber como tal coisa lhe aconteceu – semelhante à dos mineiros nas galerias quando chega, vai chegando, o grisú, o gás letal (e não temos passarinho, como eles, para nos avisar). (Estou a referir-me ao último livro de Georges Didi-Huberman, Sentir le grisou, em grande parte centrado no filme-manifesto de Pasolini La Rabbia, de 1962). Esse gás não se anuncia, não se dá por ele, e quando chega mata. Também nós, nas últimas décadas de euforia cega, fomos incapazes de ver ou sentir o movimento da catástrofe que viria, que veio, está aí – e que é aquela «coisa nova e má» de que falava Benjamin. Embarcámos numa visão ilusória de um «progresso» a que hoje se chama «crescimento», obsessão estúpida e palavra oca de quem não entende, como diria M. G. Llansol, que o «ofício de crescer» é o de nunca deixar para trás a infância, uma noção dinâmica de «origem» que alimenta o presente. Também Giorgio Agamben viu esta relação entre infância e História, e defende mais recentemente, contra a «maldição do trabalho e da produção», uma inoperosità (o désoeuvrement que Jean-Luc Nancy propusera já nos anos oitenta) que não é um apelo à inoperância ou à inércia, mas o seu modo de reagir à ditadura do «operacional» e do trabalho, para propor como tarefa da filosofia uma política e uma ética libertas dos grilhões do dever e da eficácia, disponibilizando os sujeitos livres e as suas energias para outras «tarefas» (de facto, a humanidade enquanto tal não tem tarefa específica, como já conclui Aristóteles na Ética a Nicómaco).

O grisu, gás da catástrofe...

Mas desçamos ao nível do nosso pequeno rés-do-chão, o T0 português do grande condomínio europeu. Hoje caímos em nós e estamos aí, os desmemoriados («o fascismo nunca existiu», a revolução foi um fogo de palha), subitamente sem presente, olhando para trás, mas não para muito longe, e vendo, não um montão de escombros, como o Anjo de Benjamin (apesar de também os haver, e muitos, em todas as guerras do desconcerto actual do mundo), mas uma «modernidade de chave na mão» que nos ofereceram como se não houvesse juros a pagar, neste país ainda há pouco «novo-rico entre os pobres e agora velho-pobre entre os ricos», como certeiramente escreveu Pedro Rosa Mendes há já dois anos. Quanto ao futuro – simplesmente não está à vista, «entupiu», escreve José Gil, «neste buraco negro do presente» em que caímos sem saber muito bem como (só hoje se vai sabendo...). «Como se» – diz Didi-Huberman – «nas galerias das minas da verdade histórica o tempo fosse ele mesmo um gás grisú e nós tivéssemos de sentir, ver ou prever a cada momento, de reconhecer ou antecipar [como o J. B. da peça] a força da catástrofe».

Kafka, Na Colónia Penal

Também podemos perguntar-nos, deixando de olhar para a História como objecto arqueológico, ou cadeia de causas e efeitos: que tempo é realmente este, o nosso, o vivido por cada um, o que a cada um coube em sorte ou desdita? Este nosso tempo é, num grau proventura inultrapassável, a quinta-essência do que conhecemos como kafkiano. E isto quer dizer o quê? No universo de Kafka todo o desejo, toda a acção, toda a vontade são anulados, tornados impossíveis, levados ao fim de todas as possibilidades, des-potenciados por forças obscuras, burocráticas e absurdas, mas não só, também quase míticas ou demoníacas, que transformam sujeitos em coisas, homens em bichos, indivíduos em números ou, transpondo para o que somos hoje, em meras máquinas passivas do consumo e das TVs, zombies infantilizados pelos aparelhos da propaganda, seja ela publicitária ou eleitoral. Essas forças ominosas, que podem ser as de políticos medíocres, banqueiros gananciosos, especuladores corruptos ou meros subalternos servis e ambiciosos (e esta é a mais terrível figura no universo de Kafka, que tem a sua correspondência modesta no «Pitbull» da peça) — essas forças estão aí, são legião, e inscrevem-nos no corpo, escrito a fogo, o nosso destino (que não escolhemos), como acontece ao prisioneiro na história kafkiana da Colónia Penal.
É um processo de – consciente e deliberada – anulação do indivíduo, em que a «esquerda» (originalmente a Social-democracia histórica de raiz marxista, já há um século) embarcou e que hoje chegou a um ponto de não-retorno. E que por isso só uma convulsão radical, uma implosão do sistema (que não é de excluir) poderia inverter – mas sabemos que os tempos não vão já para revoluções, e tais convulsões da História levam tempo a acontecer. A nossa única esperança poderá ser a do ritmo alucinante a que tudo acontece nestes tempos, e a de que sempre se pode fazer da necessidade uma virtude, como Marx sugere numa célebre carta a Arnold Ruge em 1843, onde escreve: «A situação desesperada da época em que vivemos enche-me de esperança»!

As redes e a «multidão» sem centro...

Por enquanto, à mercantilização total das existências corresponde a mercantilização dos indivíduos, transformados em massas anónimas e despolitizadas que, quando muito, convivem ingénua, alegre e infantilmente nas «redes», o húmus de onde nascem e onde morrem todos os «indignados», todos os «Anonymous» simbolicamente mascarados e todas as «Primaveras árabes» abortadas por poderes e contra-poderes de vária observância, todos eles mais ou menos abertamente bárbaros. No meio disto, e no nosso mundo, uma casta política que se demitiu da polis e se tornou refém de duas «escolas» igualmente perniciosas e perversas: a partidária e a empresarial. Em 1935, tempo de fascismos e totalitarismos (vindos depois da grande crise dos anos vinte), Benjamin resume em duas frases esta situação (e nem sequer está a tratar de matéria propriamente política, mas da obra de arte). 

Os novos templos e seus fiéis...

A primeira: «À reprodução em massa [da mercadoria] responde particularmente a reprodução das massas», i. é, a sua transformação em rebanho disponível para a actuação das ideologias; ou, hoje, para a religião secularizada que é, que sempre foi – também para Benjamin, ou Agamben – o capitalismo, «a mais feroz das religiões, porque não permite sequer expiação» (W. Benjamin, em «O capitalismo como religião»). Agamben lembra que a palavra e a palavra crédito têm a mesma raiz grega, pistis nos Evangelhos. Esta  palavra aparece, de facto, na designação actual, em grego, para «Banco de crédito»: Trapeza tes pisteos! O Banco tomou o lugar da Igreja e manipula a fé e a confiança dos homens (cf. entrevista a Juliette Cerf: http://www.telerama.fr, em 10 de Março 2012). A segunda frase de Benjamin refere-se aos políticos de então e àquilo que designa como «o feitiço podre do seu carácter mercantil» O mesmo se poderia dizer da «aura» estupidamente risonha e feliz (mas totalmente contaminada pela podridão da mentira, particularmente evidente na retórica polida-agressiva dos call centers) da maior parte da «arte» publicitária de hoje, que, no meio de tanto design criativo e original, acaba por se revelar como um dos maiores embustes e uma das maiores pragas do nosso tempo (Benjamin salva ainda a da sua época, numa fase incipiente, entusiasmando-se com o que chama a «literarização da rua» pelos anúncios, ou com a beleza efémera dos cartazes de cinema).
 Entre a agressividade e o embuste...

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Provavelmente, o que a peça de Jean-Pierre Sarrazac nos vem dizer e mostrar (e é muito importante, para o meu ponto de vista, este lado performativo do teatro e de outras artes, para lá da intervenção meramente discursiva, que já teve melhores dias: cf. o meu livro O Mundo Está Cheio de Deuses) é que o que nos quiseram vender como «normalidade» nos levou à queda num estado de alienação a que alguém (o psicanalista Arno Gruen) já chamou «a loucura de uma normalidade» que a si mesma se toma por padrão exclusivo da «realidade» (esta é também a forma de loucura dos ultras do capitalismo neoliberal – e do nosso actual governo!). A normalidade é hoje a ilusão saída da miragem das vacas gordas da produção e do consumo: deste par que há muito sustenta o sistema, deste insustentável círculo vicioso do capitalismo, foi-se libertando o grisú que nos estonteou e hoje nos sufoca. O tempo da abundância – relativa, porque de facto foi, e continua a ser, apenas a de alguns –, também para os pobres do Sul, correu na ilusão de uma caminhada para o melhor dos mundos, quando afinal, lembra Pasolini já em 1962, o tempo «apenas fez passar a nossa cegueira». E assim o grisú do chamado progresso, de um obsessivo «crescimento» sem engrandecimento de alma e sem equilíbrio do corpo (que não passa aqui pelos cultos atlético-hedonísticos que por aí grassam) vai envenenando a História. Que não chegará a um «fim» (na História não há começos nem fins, alguém os decreta sempre como tais, diz o filósofo Hans Blumenberg), mas já desceu ao seu mais baixo nível, fazendo tábua-rasa do Humano, reduzindo a nada a pessoa e a sua dignidade – que, ironia das ironias, todas as constituições dos Estados ditos «de Direito» assumem como artigo primeiro dos seus arrazoados inócuos, que não cumprem.
O nosso tempo (nosso? ou das forças anónimas que o determinam?) foi-nos assim dado como um tempo de «normalidade» que entretanto entrou em «crise» (a fase aguda das doenças, já na medicina grega). De facto, como já disse Agamben, estivemos e estamos sempre em «estado de excepção», que é a condição natural do sistema, gerido hoje por batutas invisíveis e por testas-de-ferro que são os governos que temos, verdadeiras marionetas do poder financeiro abstracto. Alguns sintomas – borbulhantes mas efémeros, muitas vezes sustentados pelo poder lúdico, apenas aparente, das redes e das manifestações de rua – parecem querer dizer que o estado de coisas em que vivemos, mais do que de normalidade, precisaria de ser (começa a ser, com uma insistência que não pode abrandar) um estado de urgência e de emergência (a variante pasoliniana do «estado de excepção« de Agamben). Eu próprio já o vi, com mais optimismo do que hoje, como estado de «an-arquia criativa, nem sempre pensante, mas ainda e sempre crítica», feito da emergência constante de pequenos focos de resistência, «pirilampos» que vão substituindo, de forma pluralizada e disseminada, pela acção e pelo espectáculo, a antiga intervenção crítica do intelectual cuja arma era a palavra (O Mundo Está Cheio de Deuses, 57-58).
Hoje, continuo a pensar que a acção é necessária, mas não tem condições de voltar a ser revolucionária (a «multidão» das redes não tem centro, e pensar que ela poderia ser uma nova «classe» planetária foi a grande ilusão de Toni Negri no seu livro com esse título, Multidão. Guerra e Democracia na Era do Império); mas creio também que o pensamento precisa de voltar a ser reabilitado e a ter caminhos e lugares que lhe permitam chegar às pessoas.
Talvez só mesmo o pensamento possa adiar «o fim das possibilidades», ou evitá-lo, já que o pensamento é o espaço de todas as possibilidades (já Musil o lembra no início d' O Homem sem Qualidades: «Se existe um sentido de realidade, tem de existir também um sentido de possibilidade»): o pensamento é o repositório de tudo o que em nós existe em potência e espera ser activado um dia. A busca de possibilidades é o sentido da própria filosofia. Mas aqui trata-se de teatro: também o dramaturgo sabe disso, mas precisa, naturalmente, de extremar uma situação para melhor explorar tensões dramáticas. É o que acontece na peça de Sarrazac e no seu título à primeira vista demasiado assertivo. Mas também aí são testados os limites de muitas possibilidades, e propostas várias «saídas» do beco.
Será isso possível? O sistema, que tem um grande estômago que tudo digere, permiti-lo-á? E as pessoas estarão dispostas um dia a ser capazes de escutar a voz do pensamento – para voltarem a ter rosto? Estas são algumas das interrogações que se colocam, como contra-questões, à do «fim das possibilidades». Sabemos que não vai ser fácil, porque o sistema que rege o inverno do nosso descontentamento conseguiu, nas últimas décadas de áureas ilusões, «pôr os mortos à mesa», como diz o poema de Aragon. É a forma subtil, e extrema, da sua «violência simbólica« (para usar a linguagem de Pierre Bourdieu), em que cada indivíduo é apenas um elo, previsível, na «grande cadeia do Ser» que, segundo o sociólogo francês, é o modelo da economia de mercado que nos domina. Sentamo-nos à mesa, ou no sofá da TV, e estamos mortos.

*

Gostaria de concluir evocando um texto notável, mas desconhecido, de uma grande escritora, pronunciado no 1º Congresso de Escritores Portugueses, numa época que pode ser vista, contra todas as esperanças e ilusões que então alimentámos, como a fonte próxima, e «doméstica», de alguns dos nossos problemas de hoje. No calor da revolução, em Maio de 1975, Agustina – é dela que falo – tem uma visão lúcida e inesperada, e exige uma «visão geométrica dos problemas». Coisa rara, num país pouco habituado ao rigor, antes dado ao populismo, ao facilitismo e às clientelas. E ainda por cima num clima de revolução, que, lembra Agustina, é sempre um rito possuído por uma «ofensiva de artificialidade» e sustentado por uma «enorme brigada romântica que, sob a forma de parada popular, exprime, em termos de uma duvidosa liberdade, o que deveria ser entendido em termos de economia» – economia, entenda-se, não no sentido das abstracções macroeconómicas de hoje, que apagam a pessoa, mas no seu sentido mais autêntico de lei rigorosa para gerir a casa colectiva. Lembrando que depois da revolução vem «o carácter insaciável dos partidos», que «a multidão não tem suficiente imaginação para ser curiosa», que se instalou «a polidez vazia do falso liberalismo», que houve uma demissão da linguagem, e que por isso é urgente «a crítica da linguagem», Agustina chega, nestas afirmações entre a lucidez e a polémica, à conclusão de que «o mundo do futuro será pobre» (e para ela isto não será necessariamente um mal) e de que é preciso recuperar o diálogo crítico e produtivo (para além do pseudo-diálogo de SMSs e redes, diríamos nós hoje), sem perder a consciência de que «todo o poder é impuro».
É uma intervenção extraordinária para uma escritora, no início de um tempo de esperanças que se foram perdendo, e que talvez nos possa servir ainda hoje, tão distantes que estamos dos sonhos ingénuos desses anos heróicos. As possibilidades que eles abriram foram em grande parte ficando pelo caminho, mas não morreram todas, para aqueles que continuam a acreditar que é preciso abrir a boca, ou resistir pela via dos «manifestos mudos» que são todas as intervenções culturais convictas da sua função e convincentes para aqueles a quem se destinam – uma peça de teatro, por exemplo. Sem sonhos ingénuos, mas pela acção lúcida e persistente. Como Agustina dizia no final desse seu discurso aos escritores em 1975:
«Não desejemos o melhor dos mundos, para não chegarmos a desistir dele».
O fim das possibilidades?, ou
«Todas as possibilidades voltam a estar em aberto»?